quarta-feira, 27 de maio de 2009

Angústia existencial

Passaram meses e, ao contrário do poema do Leminski, mudou tudo. A vida parece ser assim: delicados fios que unem uma coisa à outra, uma pessoa à outra... Dificilmente resistem à espiral alucinante de acontecimentos. Mais uma vez, a angústia existencial, que já preencheu tantas páginas nos últimos séculos, consumiu e enlouqueceu tanta gente. Posso morrer de mordida raivosa de cachorro de rua, mas disso não morro. Recuso-me. Quero meu lugar no mundo, onde sopre uma brisa suave para dentro do meu coração...

domingo, 24 de maio de 2009

O segredo

"Eu me aproximo das pessoas como um ladrão que se aproxima de um cofre, os dedos limados, aguçados, para descobrir, tateantes, o segredo".

(Lygia Fagundes Telles)

sábado, 23 de maio de 2009

Perto do selvagem coração da vida

"Que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos, porque basta-me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta me levantarei forte e bela como um cavalo novo..."

(Clarice Lispector, em algum lugar de Perto do Coração Selvagem)

A coragem é apenas falta de opção. Não heroísmo.

domingo, 17 de maio de 2009

Kamikaze

Atira-se

Contra inimigo invisível
Que é apenas a sombra
De uma imagem crível

Atira-se

Contra si próprio
Que desconhece
Como a face do outro
Como seu lado oposto

Em pleno ar
Pode voar
Não sabe voar

Está só
Ponto sem nó

Atira-se.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Por imprecisão semântica

Em estados mentais tumultados, quando os pensamentos se tornam perigosos e angustiantes, o melhor é cansar o corpo. Carregar caixas. Lavar louças. Limpar paredes. Cumprir burocracias. Deve ser empregada em cada atividade banal toda sua concentração.

À vista de qualquer precipício, sempre prefiro pensar que ainda restará a opção da literatura e do esforço físico. Por pior que seja a fatalidade, ainda haverá algum motivo para viver: a beleza dos poemas ou o calor do próprio corpo em movimento.

Mas isso, certamente, é mais uma ficção que inventamos na vida. Uma ficção necessária.

Talvez a vida às vezes acabe mesmo. Morra por um tempo. Torne-se nula, vazia, oca. Depois, quem sabe, volta a nascer com um novo sopro de esperança. Talvez seja impossível viver uma vida apenas, do início ao fim.

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Eis que uma frase assim me cai no colo nesta tarde:

"Quando se conversa, fala-se de coisas diferentes com os mesmos nomes".

Imprecisão semântica. Acredite: Faltam palavras neste mundo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Aos pés da catedral



O Amor Alheio, Catedral da Sé, São Paulo, 02 de maio.

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu..."

(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nadando afogado

- Pois nade esses duzentos metros. Não se detenha diante de nada. Comece enquanto é tempo, rompa com tudo e com todos! Quero você capaz de mijar na minha sepultura.
- Que devo fazer? - perguntou ele, impressionado.
- Não blefe. Jogue todas as cartas na mesa. Não fuja. Não tenha medo de perder. Nada mais digno do que, tudo feito, depois que não se poupa nada, saber dizer: perdi. Porque essa é a grande verdade: perdemos sempre.
- Eu não nasci para perder.
- É um bom começo saber isso: não ter medo de nada, nem de morrer. Você tem medo da morte? Então desista de uma vez, porque morrer não tem importância - Mário de Andrade morreu e está mais vivo do que eu, do que você. Estou repetindo palavras dele! Tenha medo é dos escorregões. Não escorregue, caia de uma vez. Os medíocres apenas escorregam. Os bons quebram a cabeça. Você é dos bons. Pois vá em frente! Pague seu preço e deus o ajudará.

(Fernando Sabino)